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A arquiteta jornalista e a jornalista contadora de histórias (Débora Rubin)

Outro dia eu entrevistei uma arquiteta que fez um trabalho espetacular. Ela percorreu o Brasil inteiro atrás de informações sobre os 26 projetos que foram apresentados para o concurso que definiria os traços da nova capital brasileira, Brasília, nos anos 50. O concurso foi lançado por Juscelino Kubitscheck em 1956, para ser mais precisa. O vencedor, como todos sabemos, foi Lúcio Costa e seu “plano do avião”. Mas quem eram os outros 25 concorrentes? Como seria Brasília hoje se tivesse sido qualquer outro o vencedor?

Aline Moraes Costa foi atrás dessas respostas para escrever a tese de mestrado feita na Unicamp, em 2002. Dos 25 projetos derrotados, ela conseguiu achar 18. Nesses quase cinqüenta anos entre o concurso e a tese, muita coisa se perdeu. Aos poucos, ela foi recuperando plantas, croquis, desenhos de gênios da arquitetura brasileira como Baruch Milman, Wilheim e Artigas. Daqueles que já se foram, ela ouviu depoimentos dos herdeiros. Muita gente se emocionou ao contar do trabalho do pai ou do avô.

O resultado é um colosso de 600 páginas com todos os detalhes possíveis que ela encontrou. Esse material será transformado em livro. E, pela primeira vez, os brasileiros terão acesso aos bastidores do concurso que elegeu a capital federal – que faz cinqüenta anos em 2010. Material de interesse não só para arquitetos, urbanistas e estudantes dessas áreas como para qualquer pessoa interessada na história do país.

O trabalho de Aline é um ótimo exemplo de recuperação de memória. A arquiteta fez um profundo trabalho de investigação jornalística. Ao mesmo tempo, foi também historiadora. Mexeu em arquivos empoeirados e desprezados pela moderna sociedade brasileira, leu livros sobre arquitetura e contou com as revistas especializadas daquela época. Como “jornalista”, entrevistou dezenas de pessoas. E a partir do material coletado, recriou e analisou o concurso de JK.

Um trabalho de memória pode ter vários fins: uma tese, um livro, um site, um vídeo. E pode ser feito para satisfazer a vontade de uma única pessoa ou de muitas. Seja qual for o resultado, juntar as peças e montar um quebra-cabeças do passado é um trabalho cada vez mais importante para um país desmemoriado.

Aline é uma arquiteta jornalista. E eu sou uma jornalista que pretende contar muitas histórias como a de Aline.

Débora Rubin

This entry was posted on terça-feira, agosto 25th, 2009 at 20:17and is filed under Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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