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Memória = Capital Empresarial (Andrea Kubitschek Lopes)

As primeiras referências àquilo que hoje chamamos de memória empresarial surgem no início do século XX, com a criação, nos Estados Unidos, da Harvard Business School (1908) e da Business Historical Society (1926), ambas na Universidade de Harvard. Um grupo de historiadores, interessados primordialmente em história econômica, passou a se preocupar com a evolução das empresas e de seus fundadores conforme contada por seus próprios arquivos.

Essa nova área de interesse dos pesquisadores de história econômica traz, em sua origem, um novo problema para os estudiosos: a história precisa de fontes, que no caso, seriam os arquivos da empresas, que precisam ser preservados, tratados e organizados. Em alguns casos, as próprias empresas ficaram com essa responsabilidade; em outros, instituições ligadas às universidades é que se tornaram as guardiãs dos arquivos empresariais.

A partir da década de 1970 se fortalece a ideia da criação de áreas nas próprias empresas com o fim de preservar documentos. Algumas contratam profissionais de história ou de documentação para organizar os acervos e elaborar textos sobre suas histórias.

O final do século XX e o início do XXI foram marcados pelo avanço acelerado do fenômeno da globalização caracterizado, entre outros, por transformações aceleradas na economia e cultura. Mentalidades, hábitos, estilos de comportamento, usos e costumes são modelados com a finalidade de reproduzir os ciclos do capital sob as mediações publicitárias ou sob atividades produtivas. Se a própria velocidade das mudanças traz em seu interior o embrião da busca de um passado e identidade em termos individuais e coletivos, o mesmo fenômeno pode ser observado no interior das empresas.

Sendo assim, nos últimos 25 anos, temos assistido à edição de muitos estudos sobre memória empresarial, associados à criação de centros de memória e documentação, de museus, ou ao desenvolvimento de produtos institucionais como exposições e livros, quase sempre baseados em pesquisa histórica. Muitas delas criaram seus centros de memória, que acabaram por embasar o tema da responsabilidade social empresarial.

As primeiras experiências brasileiras surgem na década de 1980: em 1986, o Centro da Memória da Eletricidade, que representa uma posição precursora em relação às memórias empresariais no Brasil; na Bahia é inaugurado o Núcleo de Memória Odebrecht em 1984, e, em São Paulo, o Centro de Memória da Eletropaulo e o Centro de Documentação e Memória da Klabin, criado em 1989. Na década de 1990, os exemplos se multiplicam e temos o surgimento, em 1994, do Centro de Memória da Bunge; em 1996-1999, do Projeto História das Profissões em Extinção, organizado pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos de São Paulo e a Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia, que contou com pesquisa histórica, publicação paradidática, banco de dados e videoteca; em 1997, da Memória da Brasmotor (hoje denominada Memória Whirlpool) ; em 1998-1999, do ABC de Luta – Memória dos Trabalhadores, criado como um centro de referência virtual tendo também uma videoteca (iniciativa do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC); e em 1999, do Memória Gerdau, que já havia feito um levantamento documental sobre sua história na década de 1980. Em 1999, surge o Memória Globo, uma iniciativa da família Marinho, com o objetivo de resgatar a história das principais empresas do grupo, além de recuperar a trajetória de seus fundadores.

Este fenômeno se ampliou a partir do ano 2000 e são múltiplas as iniciativas de memórias empresariais. Só para citar algumas, temos a Memória Votorantim 109, organizada em 2003 como uma iniciativa familiar de preservação da história da empresa; o Centro de Memória Bosch, criado também em 2003 ; o Grupo Pão de Açúcar, que mantém, em São Paulo, o Espaço Memória desde 2003. Estes são apenas alguns exemplos entre os inúmeros projetos de memória que têm surgido no meio empresarial.

Os interesses dessas iniciativas estão claramente voltados para a imagem e para a identidade organizacional. A questão da identidade é um elemento forte nas empresas, bem como em toda a sociedade. A memória nos ajuda a estabelecer esses laços de pertencimento com os grupos dos quais fazemos parte. As empresas buscam marcos e elementos que ajudem na construção de uma cultura interna em busca de sua legitimação.

Há uma grande tendência nas empresas em investirem em memória, dando-se ênfase às efemérides e às celebrações. As memórias das empresas se tornam, assim, ferramentas de gestão empresarial. Buscam fundamentar tomadas de decisão e estabelecer uma comunicação mais direcionada com objetivos ligados ao fortalecimento da empresa junto aos seus públicos de interesse na sociedade. Na maioria dos casos os projetos de memória empresarial se encontram sob responsabilidade das áreas de comunicação.

Do ponto de vista da cultura organizacional, a memoria empresarial pode ser analisada como elemento vital para redescoberta de experiencias e valores, assim como catalizador para reforçar vínculos do presente. Despertando e estimulando a consciência de pertencimento ao grupo, permite que funcionários e colaboradores se percebam como sujeitos da história.

E na sua própria história que a empresa encontra novos caminhos para mudar, sem perder a ligação com sua identidade construída ao longo do tempo, criando a possibilidade de manter aquilo que a diferencia de seus concorrentes.
Projetos de memoria empresarial abrem para o mundo corporativo a perspectiva de que documentos, textos, relatórios, boletins, mensagens eletrônicas, normas, processos e experiencias, tanto pessoais como coletivas, formam um impressionante arsenal de conhecimento que pode ser usado a favor da empresa. Maquinas e moveis antigos, fotos escurecidas, documentos, fitas de áudio, filme e vídeo, relatos orais podem ser transformados num acervo de vantagens competitivas.

Produtos como livros institucionais, biografias, vídeos, cd rom, exposições, museus, conteúdo on line, centros de documentação e memoria são exemplos de produtos que, dentro de um programa de memoria empresarial, tornam-se soluções de impacto para valorizar o trabalho dos funcionarios da corporação na medida em tornam possível uma visão histórica da empresa, de seus fatos e pessoas marcantes, com visibilidade, facilidade de acesso e acima de tudo, olhar histórico e institucional.

Andrea Kubitschek Lopes 
Consultora, historiadora, museólologa e mestre em Memória Social e Documento.

This entry was posted on sexta-feira, setembro 11th, 2009 at 20:18and is filed under Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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