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Comunicação, organização e memória empresarial

Comunicação e Organização
O mundo contemporâneo exige colaboração, integração e relacionamento, o que impacta inteiramente nas organizações. Formada por pessoas e dependente destas, as organizações não prescindem de relações e interações. Para compartilhar e produzir informações, selecionar mensagens adequadas, manter constante diálogo, estar atenta ao que é falado dentro e fora de seu domínio, ouvir as expectativas de seus públicos, dar feedbacks, conhecer bem sua história e dela tirar as lições para o futuro, a organização precisa de comunicação bem planejada. É um trabalho incessante em busca de conhecimento, entendimento e de relacionamento transparente e confiável.
Como o velho dito popular que apregoa que a base de tudo começa em casa, a comunicação com os públicos depende, em grande parte, do relacionamento que a organização tem com seus empregados. É fato que os colaboradores de uma organização são os responsáveis pela continuidade dos valores empresariais, por percorrerem os caminhos em busca das metas e por levar a cabo o planejamento estratégico da empresa. Pela sua importância, é comum as empresas afirmarem que seus empregados são o maior patrimônio. Sua importância aumenta ao se constatar que os profissionais, além de trabalharem para a empresa, são também cidadãos, participam da comunidade em que estão inseridos, são consumidores, formadores de opinião, agentes de transformação social, dentre outros papéis. Ao se relacionar com seu público interno e formatar suas políticas de comunicação interna, a organização não pode perder de vista esta multiplicidade de papéis e deve entender que fala com um ator complexo e multifacetado. Por exemplo, a imagem da empresa influencia seus colaboradores e faz aumentar ou diminuir o orgulho que eles têm pela organização na qual trabalham. Esse sentimento pode interferir no julgamento que eles fazem do local de trabalho, no relacionamento entre colegas e até na produtividade.
São complexas as interfaces da organização com seus públicos. Em relação aos colaboradores, a organização precisa ter redobrado cuidado, pois eles conhecem como ninguém a verdadeira face da empresa em que trabalham. É ingênuo acreditar que os empregados possam ser enganados com frases vazias, ideias que nunca serão concretizadas, projetos que não sairão do papel. Perguntas como nossa empresa é um bom lugar para trabalhar? e os empregados sentem orgulho por estarem aqui?, devem ser feitas constantemente a fim de que se possa reavaliar a gestão do público interno, antes que surjam problemas que extrapolem seus muros. A opinião que eles emitirem sobre a empresa para a qual trabalham em seu meio social será de grande impacto e tenderá a ser considerada verdadeira. Daí a importância da comunicação bem estruturada e planejada, na medida em que ela aproxima a organização dos colaboradores, visando entendê-los, interpretar seus anseios e buscar o melhor relacionamento que traga satisfação, produtividade, sentimento de pertencimento e de orgulho.
Partindo desses pressupostos, fica claro que o investimento em relacionamento deve começar dentro de casa e essa relação deve levar informação, criar integração entre as equipes de trabalho, motivar para a conquista de resultados, valorizar os sucessos obtidos e enaltecer os empregados – principais atores.
As organizações que atuam dessa forma com certeza colhem novos comportamentos, que cada vez mais determinam o protagonismo do público interno na história e no futuro da empresa.

Comunicação e Memória Empresarial

A comunicação tem cada vez mais o papel de atrair o público interno, aproximá-lo da missão da organização, compartilhar a trajetória, os sucessos e as dificuldades superadas. É um grande desafio que exige mudanças na atuação dos dirigentes e também dos comunicadores, impondo uma nova maneira de pensar a comunicação, com maior flexibilidade, dinamismo e abrangência.
Atuando em planejamento e projetos de comunicação, muitas vezes com foco em público interno, temos refletido cada vez mais sobre essa complexidade de relacionamento entre organização e colaboradores. Percebemos o quanto a comunicação pode efetivamente utilizar o resgate da história e dos processos empresariais como importante ferramenta, já que exige a construção e o compartilhamento de informações, significados, símbolos e culturas. A partir desse resgate, fica mais evidente para o empregado perceber seu papel na trajetória que a organização, para qual trabalha, traçou e seguiu. Dessa forma, a função desse resgate não é apenas informar, mas também formar, na medida em que é útil na constituição do futuro da empresa e no novo olhar que os colaboradores passam a ter sobre a organização. E é, aí, que entendemos melhor a relação entre projetos de memória e a comunicação organizacional, sobretudo na comunicação com seus colaboradores, que é o objeto deste artigo.
Ao falar sobre memória, estamos discutindo comunicação. Afinal, é por meio de textos – escritos e falados – que registramos e compartilhamos a história da nossa vida, da família, da sociedade e das organizações. Acreditamos que ao resgatar a memória de uma empresa ou de uma instituição, conseguimos perceber com mais clareza sua trajetória, ouvir as vozes dos seus vários atores, conhecer os sucessos e insucessos acumulados e, por conseguinte, as transformações resultantes de todo esse percurso. A partir disso, observar que impactos ocasionou à sua cultura e no relacionamento com seus públicos (no presente) e, ainda, quais são as perspectivas de caminho para o futuro.
A história, a trajetória, os sucessos, os insucessos, tudo o que se relaciona com a empresa está intimamente ligado às pessoas que trabalham nela, pois são os empregados que vivenciam a rotina, produzem os textos de conversação ao interagirem entre si, experimentam e compartilham processos e símbolos, constroem conhecimento e geram oportunidades para a organização crescer e existir. Ao relembrar acontecimentos, fatos e marcos os empregados sentem-se muito mais integrantes da organização para a qual trabalham.

É importante ressaltar que não se espera consenso de ideias em um projeto de memória. É comum haver várias interpretações de um mesmo fato quando se ouve vários empregados. Não há certo nem errado. Cada narrativa tem a percepção de seu autor e carrega intrinsecamente as experiências e os significados de sua vivência naquela organização, além de aspectos pessoais. Por isso, a história da empresa será muito mais rica quanto mais se ouvirem vozes variadas. Juntas, essas vozes irão formar a narrativa histórica daquela organização.
Destacamos o trabalho com foco no público interno, mas é fundamental ressaltar que para desenvolver um projeto abrangente de resgate de memória é necessário envolver outros stakeholders. A vantagem de ouvir todos esses públicos (múltiplas narrativas históricas) é a garantia de ter em mãos muitas visões e pontos de vista. Além disso, não basta ouvir pessoas, mas também resgatar documentos, fotos, vídeos, além de pesquisar sobre o mercado onde a organização está inserida, a fim de se obter um panorama histórico abrangente. É, portanto, um trabalho minucioso de busca de dados que ao serem ‘costurados’ formarão uma única história.

Projetos de Memória Empresarial
Como a comunicação pode atuar no resgate de informações, dar sentido e unidade às histórias individuais dos empregados e inspirar os próximos passos da empresa? É esta indagação que nos fez criar o Núcleo Memória Empresarial com a competência de estabelecer processos comunicacionais que coletem e organizem o histórico empresarial. Nosso trabalho parte da premissa de conscientizar, sensibilizar e envolver todos os  empregados (posteriormente, também outros públicos). Para tanto, as ferramentas de comunicação interna são fundamentais.
O passo inicial é fazer com que a liderança da organização dissemine o valor do resgate de informações, compartilhe os objetivos pretendidos e aponte os principais atores, dentre seus colaboradores, para destacar os fatos marcantes da trajetória percorrida até então. O profissional que irá coordenar o projeto planejará as ações tanto de divulgação do projeto quanto dos meios adequados para o resgate das informações. Com os objetivos e o planejamento estabelecidos é feita uma imersão nas informações disponíveis ou pesquisadas sobre a organização e seu mercado (material impresso, reuniões, site etc)
Outra etapa é a gravação e transcrição de depoimentos de colaboradores, selecionados de acordo com critérios pré-estabelecidos. A memória oral é um dos alicerces da história corporativa. Para estimular as pessoas a contarem o que vivenciaram e construíram dentro da organização, podem ser necessárias campanhas de sensibilização e mobilização interna, partindo da conscientização da relevância da experiência de cada um.
Simultaneamente, ocorre a organização da base documental, ou seja, prospecção e captação de certidões, plantas, certificados, outros documentos impressos e digitais, além de material iconográfico e objetos, que tenham valor para a concretização dos fatos relacionados como importantes na história da empresa. A classificação destes documentos é feita na ordem cronológica, criando uma linha do tempo, que irá facilitar a retrospectiva e a posterior narrativa da história empresarial.
Após essas etapas, os frutos serão livros, vídeos, exposições de fotos e objetos, eventos comemorativos, site e outros que comporão o portfólio de ações para comunicar o que a organização construiu até então e expressar seus valores fundamentais. Os centros de memória são ambientes propícios para o arquivo deste documental. Grupos como Bunge, Nestlé e Votorantim os utilizam como estratégia dentro do negócio e importante ferramenta de gestão e de relacionamento com públicos interno e externo.
Quando viabilizado, o projeto de memória empresarial será apenas o início da preservação da história. A informação, resultado do trabalho, ficará disponível para toda a empresa, servirá de subsídio para o planejamento futuro e funcionará como fonte de consulta para colaboradores, imprensa e outros públicos externos, propiciando maior proximidade entre eles.

Profissional de comunicação atuando em Memória
Porque acreditamos que o profissional de comunicação – seja ele integrante da organização ou de uma consultoria/agência externa, é o mais indicado para coordenar um projeto de memória empresarial?
Inicialmente, o profissional de comunicação lida com a imagem da empresa e utiliza ferramentas que facilitam o relacionamento da organização com seus públicos. Além do mais, é o profissional que mais próximo está dos stakeholders.
Aquele que atua em comunicação, se for um estrategista, além de conhecer o público interno da organização, saberá utilizar as melhores ferramentas para sensibilizá-los e motivá-los a se comprometer com um projeto de memória. Campanhas de sensibilização e pesquisa já fazem parte do ferramental utilizado por esse profissional em seu trabalho, o que facilita o desenvolvimento de um projeto como esse. A divulgação dos registros, seja por meio de livros, sites ou qualquer outra expressão, pressupõe também um trabalho de comunicação. Serão palavras que, organizadas em textos, transmitirão conhecimento para gerações futuras e darão a devida valorização aos protagonistas da história.
Entretanto, é necessário enfatizar que o profissional de comunicação, ao liderar um projeto de memória empresarial, não prescinde da visão de um historiador que utiliza instrumentos de seleção, catalogação e arquivamento de documentos para elaboração, por exemplo, de uma política de acervo histórico.
Portanto, defendemos que Memória Empresarial é um campo de relevância no escopo da comunicação empresarial e que as organizações precisam mais e mais se conscientizar da importância dessa ferramenta para a melhor gestão de sua imagem e identidade.

This entry was posted on quarta-feira, julho 13th, 2011 at 21:00and is filed under Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

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